Indicação ao Oscar marca um novo capítulo para a produção cinematográfica do país
Por João Guimarães
Após anos de ataques ao cinema nacional, Ainda Estou Aqui, protagonizado pela atriz Fernanda Torres, resgata o orgulho pela cultura e cinema brasileiro. A atriz se tornou um dos assuntos mais comentados no mundo após ganhar o Prêmio Globo de Ouro, na categoria Melhor Atriz de Drama, desbancando grandes nomes de Hollywood, como Nicole Kidman e Angelina Jolie. A conquista inédita trouxe de volta à mesa dos brasileiros a importância de não só prestigiar, mas também a de defender a sétima arte.
A premiação de Fernanda Torres, que deu vida à personagem Eunice Paiva, consagrou um ano histórico para a dramaturgia brasileira. Tal conquista reflete não só o talento de Torres, mas também um movimento maior de valorização do cinema nacional. Esse processo ficou evidente em 2024, quando o setor obteve o melhor desempenho desde a pandemia, arrecadando mais de R$220 milhões e levando cerca de 11 milhões de espectadores às salas de cinema, segundo dados da Agência Nacional de Cinema (Ancine).
O Globo de Ouro não foi a única premiação que o filme recebeu. Até o momento, o longa já levou o prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Veneza, Melhor Filme no Festival de Cinema Internacional de Palm Springs, o Prêmio do Público no Vancouver International Film Festival e no Festival de Pessac e Filme Favorito do Público no Mill Valley Film Festival e no Miami Film Festival GEMS. Com tamanho sucesso entre a crítica e o público, o filme se consolida como um marco para o cinema brasileiro. A confirmação da indicação ao Oscar nas categorias de Melhor Filme, a principal da premiação, Melhor Filme Internacional e Melhor Atriz, com Fernanda Torres, reforça o impacto do longa, e as chances reais de vitória, segundo os principais veículos especializados na cobertura do Oscar, como o Variety e o GoldDerby, engrandecem ainda mais a onda de valorização da cultura nacional. Fernanda Torres, pode realizar outro feito histórico: ser a primeira brasileira a ganhar o Oscar na categoria de Melhor Atriz, honraria pela qual sua mãe, Fernanda Montenegro, também já foi indicada, pelo filme Central do Brasil em 1999, mas perdeu para a atriz Gwyneth Paltrow, com Shakespeare Apaixonado.
Desde as vitórias da produção, a internet tem sido tomada pelo sentimento de orgulho e representatividade da cultura brasileira, o espírito de copa do mundo se instaurou nas redes sociais e tem causado reflexões sobre a importância de proteger a história do Brasil, uma vez que o filme retrata o drama da família Paiva durante a ditadura militar, quando Rubens, ex deputado federal pelo Partido Trabalhista Brasileiro, é levado por militares à paisana e desaparece, Eunice então se torna a força central da família na busca pelo seu marido que foi assassinado e nunca teve o corpo encontrado. Essa narrativa resgata uma ferida histórica e destaca a luta pela memória e justiça no país.
Durante um discurso emocionado, no Globo de Ouro, Fernanda Torres homenageou o legado de sua mãe, que também já esteve presente na premiação, concorrendo na categoria de Melhor Atriz e Melhor Filme de Língua Estrangeira por Central do Brasil, no qual foi protagonista. Na ocasião, Montenegro perdeu como melhor atriz para a artista Cate Blanchett, do filme Elizabeth, mas viu seu filme ser premiado, sendo a única premiação brasileira no evento até então. Além disso, em sua fala, Torres destacou a importância e a força da cultura em momentos de crise: “isso é a prova de que a arte pode sobreviver na vida, mesmo durante tempos difíceis”. A fala da atriz foi amplamente reverenciada nas redes sociais, se tornando um símbolo de esperança para o futuro e para o reconhecimento da dramaturgia brasileira.
Ainda Estou Aqui, lançado no dia 7 de novembro, liderou as bilheterias brasileiras, chegando a superar produções internacionais como Wicked e Venom 3, faturando R$27,7 milhões nas duas primeiras semanas. Outros filmes, como Os Farofeiros 2, Minha irmã e eu e O Auto da Compadecida 2, também permaneceram no topo da bilheteria de produções nacionais em 2024.
O investimento na cinematografia se demonstra como um dos principais motivos para o aumento da busca do público por filmes brasileiros. A Lei Paulo Gustavo, por exemplo, destinou cerca de R$3,8 bilhões para a indústria cultural desde 2023, sendo 53,3% para o audiovisual, segundo o Plano Nacional de Cultura do Governo Federal. Além disso, a volta da obrigatoriedade da Cota de Tela em 2025 traz a possibilidade de maiores números para os próximos anos, a lei que havia perdido vigência em 2021, voltou a estabelecer que as salas de cinema exibam filmes nacionais por um número fixo de dias, a medida foi sancionada pelo Presidente Lula em dezembro de 2024.
Apesar dos avanços, Ainda Estou Aqui é uma exceção diante dos problemas enfrentados por filmes nacionais. Até o início de setembro de 2024, 567 produções entraram em cartaz nas mais de 3.509 salas de exibição que operam no país, sendo 212 filmes brasileiros e 355 internacionais. Ou seja, mais de 60% dos filmes exibidos no Brasil não são produções nacionais, segundo dados da Ancine. Além da oferta desigual, a preferência do público também é um dado discrepante. Apenas 8,4% do público brasileiro optou por assistir filmes nacionais. Em contrapartida, 91,6% da audiência escolheu produções internacionais, segundo o Sistema de Controle de Bilheteria (SCB).
Diante desse cenário, Ainda Estou Aqui se estabelece como um símbolo de resistência, tornando o cinema nacional sinônimo de qualidade e credibilidade. O sucesso avassalador, que fez o Brasil vibrar como em final de copa do mundo, é um lembrete de que a valorização da arte é essencial para fortalecer a cultura brasileira e, assim, fazer com que ela rode e impressione o mundo, mas sempre volte para sua terra, para o seu povo: o povo brasileiro.
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